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Capítulo 4 - A nostalgia do algodão
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A nostalgia do algodão 

A lavoura na região de Borborema tem certas peculiariedades. Determinada espécie de plantação tem sua época de predomínio pela extensão e valor econômico. O algodão esteve na moda de 1934 a 1942, aliás, em todo o estado. Em questão de lavoura, só se falava em algodão. Foi uma febre que atacavam a todos, indistintamente. Funcionários, comerciantes, gente da cidade que nunca lidou na terra, todos se aventuravam a ganhar dinheiro com algodão. 

A colheita, no município chegava anualmente ao aprecíavel rendimento de 15 mil toneladas. O algodão sustentava o funcionamento de três máquinas de benefícios (duas de grande capacidade). Anderson Clayton, Usina Beatriz (Barreto e Almeida), Osvaldo Cesar e Rachid Rayes e ainda se exportava para Taquaritinga milhares de quilos. O preço da venda pelos lavradores, uma média de quinze mil réis por cada quinze quilos e rendimento de 2255 quilos por alqueire. Essa grande lavoura de algodão foi incentivada e assistida pela Secretaria da Agricultura Estadual que vendia a semente selecionada e limpa da variedade “Texas” e “Express”, originária dos Estados Unidos. 

Entrou muito dinheiro no município. Para corresponder ao grande movimento comercial, foi fundado o primeiro estabelecimento bancário. A Casa Bancária de Borborema S/A, que começou a funcionar em Janeiro de 1939, com o capital de 250 contos de réis. A sua diretoria era constituída por: Claúdio Novaes (presidente), Joaquim Martins Carvalho (diretor superintendente) e Francisco Alonso de Chames e Melo (gerente). Depois foi constituída a sede própria, o nosso primeiro prédio de dois andares. Devido ao algodão foram destruídas as últimas reservas florestais. De junho a setembro, meses das tócos para o plantio, a atmosfera toldava-se completamente pela fumaça que pairava no ar, como uma bruma seca, dias consecutivos, agravada com a escasses de chuva nessa época do ano. 

Havia dias que o céu nublado baixava a tal ponto que o sol apresentava o seu disco luminoso “embaçado”, parecendo o sol da bandeira japonesa. Os detritos carbonizados das queimadas dançavam, rodopiavam no ar e, levados pelo vento, sujavam lojas e residências, dando a tudo uma sensação de opressão. Com as plantações sucessivas sem se usar o sistema de rotação de culturas, as terras foram se enfraquecendo, aumentando as pragas. O rendimento foi diminuíndo. Em 1942, agravado pela circunstância de o tempo não ajudar, a média da produção caiu ao nível de menos de 650 quilos por alqueire. Foi o fim. 

Ninguém, por muitos anos, nem queria falar em algodão. Depois de mais alguns anos, lavouras de algodão voltaram a ser plantadas, apresentando considerável rendimento, mas jamais atingiram a produção daqueles tempos. 

Outro fato marcante nas memórias é aquilo que se pode chamar de “a nostalgia do algodão”. O senhor Viu relembrou em entrevista concedida há alguns anos atrás, para o levantamento de informações para o livro Mémória Viva, sobre a questão no período da alta produção: Então foi quando veio aqui... não eram indústrias, era três descaroçadeiras de algodão: a Sanbra (Sociedade Algodoeira Nordentes Brasileira), a Anderson e a Beatriz (que funcionava no armazém do Rachid Rayes). Eram beneficiadoras de algodão. 

Aqui suas memórias estão centradas nos anos 30 – década do grande progresso de Borborema, originado do sucesso das plantações de algodão. Outros entrevistados também recordaram esse momento com saudades. A cultura de algodão tinha em Borborema, uma das maiores áreas plantadas do Estado. O senhor Wilson recordou também a importância da colônia japonesa “radicada no município” (além das Usinas de beneficiamento e da Estrada de Ferro que chegou em 1938). 

Se consultarmos a história econômica do Brasil, veremos que, depois da crise de 1929, o algodão foi realmente o único produto primário cujas exportações aumentaram nos anos 30. Aliás, foi esse um dos motivos pelos qual o Japão estimulou a emigração para o sul do Brasil (regiões algodoeiras). Borborema foi uma das cidades beneficiadas por essa conjuntura internacional. Os japoneses altamente qualificados nos diferentes ramos de atividade, eles foram um exemplo, um modelo por sua modéstia e capacidade, principalmente na lavoura. Despontaram em Borborema apartir de 1920. Como agricultores dedicavam-se, no começo, à cultura de arroz, uma de suas especialidades. Raramente se viu um japônes interessar-se pelo trato do café. Aqui como havia terras em abundância, aproveitava-se somente o melhor da terra, a parte superficial, ainda fértil, depois de derrubadas as matas. Isso por alguns anos. 

Na primeira fase de empobrecimento do solo pelas queimadas sucessivas, invariavelmente aparecia o sapé. Essa “praga” nas lavouras de café e roças não podia ser eliminada a não ser em carpinas de “três sextas-feiras”, consecutivas. O sistema radicular desse vegetal, que existe para aumentar a área de absorção da umidade e de elementos nutritivos (forma de resistência), apresenta expansão e brotamento extraordinários. 

Os japoneses nos proporciononaram o ensinamento, de cultivar os brejos e baixadas com a drenagem, aproveitando-se os terrenos de aluvião, isto é, ricos em elementos fertilizantes arrastados pelas enxurradas nas bacias que formam os corrégos e rios. Depois, na época do algodão no município, entre 1932 e 1945, quando as melhores lavouras, mais bem tratadas e de maior rendimento eram de japoneses. Entretanto o lavrador japônes enfrentava um grave inconveniente. Para facilitar o trabalho das ferramentas, não sobrava no terreno nenhuma árvore, nem toco, nem raízes. Desaparecia até a lenha para uso doméstico. 

Mas quando o Brasil entrou na 2ª Guerra a favor dos aliados, as exportações de algodão declinaram rapidamente. Como na vida do indivíduo, as cidades têm suas épocas de progresso, e também períodos nefastos, que são páginas de sua história. Em 1942 o Brasil tinha entrado na guerra que assolou o mundo todo de 1939 a 1945, ao lado dos Estados Unidos e seus aliados. Era necessária uma vigilância permanente nas ações e deslocamentos dos subditos do Eixo aqui radicados, exercida pelos delegados de polícia em todo o território nacional. Em Borborema, coincidiu ser delegado de polícia nesse tempo, quando o estado de guerra aboliu todas as garantias do cidadão, o Doutor Francisco de Campos Morais, autoridade que exerceu essa função com pouca severidade. 

Os aparelhos de rádios de japoneses, alemães e italianos e de seus descendentes foram apreendidos. Para se viajar, mesmo para os municípios vizinhos, era só com prazo determinado, mediante salvo-conduto. A situação era agravada com a distribuição, por quotas, de gêneros alimentícios, com tabela de preços rigorosamente controlada. Deu-se, consequentemente, o esvaziamento da população do município. Trabalhadores, em grande parte, representantes da força viva da produção local, não suportavam essas medidas drásticas e, às vezes, humilhantes. O Paraná estava na ordem do dia. Estabeleceu-se uma corrente migratória para aquele estado e também para a capital São Paulo. Levas e levas de agricultores se movimentavam continuamente. Chegaram a ser fretados trens especiais para o transporte de japonesese e seus pertences, que mudavam-se em massa do município. Calculava-se esse verdadeiro êxodo entre 7 a 8 mil habitantes naqueles dias de guerra. 

O senhor Arlindo Alves Mourão, (era menino, portanto, nos anos 30) na época de seu depoimento iniciou com menção a essa perda que tanto os afetou. Relatou que depois da queda das exportações de algodão e devido à 2ª Guerra Mundial houve um êxodo populacional: “É que Borborema foi um lugar que já teve muita, muita população. Depois, com a queda do algodão, fracassou bastante”. Mas tudo passa Borborema existe e se desenvolve. Aqueles dias incertos ficaram para trás, e não deixou saudades na memória dos moradores antigos. 

É o senhor Wilson, que sempre foi muito didático, quem melhor explicou “o declínio da cultura do algodão” com as usinas de beneficiamento retirando-se do município e a partida dos japoneses para outros países e regiões (já a partir de 1941). Explicou que diariamente via-se os trens da Douradense sairem abarrotados de famílias japonesas, perdendo a cidade, grande parte da sua população. Em muitos casos os proprietários dos prédios pagavam para o inquilino morar no mesmo, para melhor conservação. 

Os trens abarrotados de japoneses lembravam cenas de guerra. E era mesmo época de guerra. Voltemos ao senhor Viu, cuja mente aberta situou o problema da 2ª Guerra em primeiro plano e confirmou aos estudantes na época da entrevista o esvaziamento da população: “... quando começou a 2ª Guerra a coisa fracassou (...) A zona rural era muito habitada, mais habitante do que hoje. Aí, quando fracassou o algodão, muitos se mudaram para procurarem melhores lugares e outros devido a 2ª Guerra Mundial, porque que as famílias japonesas e italianas eram muito perseguidas. Borborema tinha um delegado que era muito bravo, ele fazia distinção, tratava mal, espaventava. Então foi quando o povo de Borborema debandou, então fracassou. Mas depois melhorou”. 

“O delegado espaventava.” Tão expressivo o nosso personagem. Na sua fala é possível sentir a solidariedade do senhor Viu (filho de espanhóis) para com seus “irmãos” estrangeiros. Podemos também sentir a melancolia da cidade vazia, o desânimo da população. O que mais encanta em seus depoimentos é seu olhar constante, do urbano para o rural. Após a descrição da decadência, informa com certa ansiedade, “mas depois melhorou”, referindo-se agora a Borborema em tom otimista. Mas tudo passa Borborema existe e se desenvolve, mas sempre se preocupando com a educação, e com a cultura do café.

Autor: 
Jornalista José Commandini Neto 
netoborbo@bol.com.br

 

 

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