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Capítulo 6 - Borboremenses e seu lazer junto à natureza
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Borboremenses e seu lazer junto à natureza 

O senhor Viu nos conta como era a natureza no século passado. Um dia seu pai comprou sete alqueires de terras no Bairro do Tanquinho. "Ali que nós nos divertiamos". Fala-nos sobre a fauna de Borborema. É uma passagem admirável que nos relata: "... ali tinha muito lazer. Ribeirão dos Porcos perto pra gente se banhar. O Bairro Tanquinho tinha uma boa represa que ainda hoje existe (...) Passarinhos de lei, curiós, sabiá do reino, sabiá laranjeira, enfim toda espécie de animais. Inclusive meu pai pegou um veado vivo num sapezal. Imagine como era gostoso naquele tempo". Não era difícil encontrar pacas nos quintais, os irmãos Viu e Manolo caçavam próximo à praça da cidade, onde, segundo o senhor Viu, chegaram a capturar duas perdizes numa mesma arapuca. Haviam usado milho como isca, a menos de um metro da praça, a pesca nos rios do município era em abundância. 

Se tal pródiga natureza ainda invadia o espaço "urbano" de Borborema nos anos 30, depois do avanço do Complexo Cafeeiro, imaginem o que teria sido esse paraíso no tempo dos Fugidos. O senhor Viu nos conta que: "Fruta era jabuticaba nativa, sabia disso?". As jabuticabeiras eram nativas na beira do rio Tietê, os jovens aprendiam a nadar no ribeirão dos Porcos e no ribeirão dos Fugidos. Um mundo sem poluição que se perdeu, hoje não se pode mais nadar no ribeirão dos Fugidos devido à poluição. Estava vivo na memória do senhor Viu. A vivacidade do senhor Viu é indiscutível. Ele nos traz notícia de diferentes épocas. Nos anos 30 havia cinema em Borborema. O cinema era antigamente um importante melhoramento com que sonhava toda população de lugares pequenos. 

A primeira casa para exibição de filmes cinematográficas do distrito foi construída por Pascoalino Figueira Verde, na rua Joaquim Martins Carvalho (antiga Avenida Larga), em 1919. Era moda, então, para todo cinema que se prezasse ter uma orquestra, ou coisa parecida, que tocasse músicas de acordo com o enredo do filme. No começo era a banda musical local que preenchia essa exigência, não sem antes tocar algumas notas nas imediações do prédio na rua, para que se chamasse a atenção das pesooas

O senhor Viu, quando voltava da aula, ouvia os sons que vinham do cinema, que no horário exibia algum filme, e nos confirma esse fato: "É quando vinha da escola (...) Acho que era o aparelho do cinema. O som era música ao vivo, violino qualquer coisa... Eu sei que eles enfeitavam o filme. Era mudo... Então sempre tinha alguém tocando a música adequada para o filme". 

Era época do cinema mudo com aparelho projetor e iluminação a gás. A freqüência era desordenada. Em 1923, com a direção de Antônio Zanatta, o cinema passou por melhorias, voltou a funcionar esse mesmo cinema que se estabilizou com a vinda da luz elétrica em 1925. Nesses períodos, tomaram parte da orquestra do cinema como músicos: Gustavo Saliceti e Alda Galvão (violino), Joaquim Saldanha (violão) deixou de tocar no cinema por ter sido nomeado sub-delegado, naturalmente aquela função era imcompatível com a austeridade do cargo que tinha que exercer, Juliano Gusmão e Antônio Bueno de Camargo Júnior (violão), Lourdes de Barros (cavaquinho). 

Em 1927, a orquestra melhorou muito com a contribuição dos violinistas Orlando Soares de Araújo e Francisco Pécora, do Conservatório de São Paulo, respectivamente professor e diretor do grupo escolar. O cinema também servia para apresentações teatrais que tiveram sua época. Em 1931, foram encenada "A Ceia dos Cardeais", de Júlio Dantas, "Fabíola", entre outras peças. Representações essas com bom desempenho artístico e que traziam grande entusiasmo à platéia, porque eram produzidas no próprio município. O cinema falado foi obra de Atílio Montanari, espírito empreendedor que construiu o prédio com melhoramentos adequados. 

Mas o senhor Viu ainda fornece pistas sobre o aspecto pitoresco da instituição cinematográfica interiorana. A “tela esquentava muito” e jogava-se água para resfriar. Nada escapa à sua memória. Recorda os nomes dos maestros (o Pedro Maestro, o Vicente Capi), recorda os chefes políticos mais importantes (Martins Carvalho, Silveira Bueno, e a família Torres), além de base da economia local (amendoim, café e logicamente o algodão). Em cada época, formas específicas de lazer. As lembranças do senhor Viu nos remetem ao lazer de antigamente, com bailes freqüentes e o carnaval animado a sanfona. Ele e o irmão tocavam as quatro noites. 

Diz que era “na raça”, porque sem tecnológia de amplificação, tinham que “puxar no fole”. As quermesses também serviam de lazer para população o médico Pedro Luiz Bocca relembra que, para se fazer o Largo da Matriz (inaugurado em 1950), um grupo de moços se uniu e promoveu uma quermesse. Naquele tempo não havia depósito de bebidas, então o chopp era coisa difícil. O jovem Adriano Alves trazia um barril de chopp no dia da quermesse e, às vezes, a banca não vendia. Então o grupo de jovens que organizaram a quermesse “tiravam do bolso”, ele reclamavam, mas pagavam o chopp que faltava para beber. Aí todo mundo que passava pela banca bebia de graça. Na verdade, pagavam o chopp para ajudar a fazer o jardim da igreja, que vai agora perdendo seu ar de presépio, substituído pelo paisagismo. Borborema se urbaniza, enquanto formas típicas de lazer se desenvolvem. 

O doutor Bocca nos conta uma situação muito engraçada: O lazer era o cinema, as moças faziam footing em frente à igreja. Até que um dia o padre espantou elas de lá”. Há muito tempo, quando o povoado emergia da mata em redor, aparecia no povoado ciganos, certos homens e mulheres de fala incompreesível, talvez sérvios ou húngaros. 

Seus companheiros eram animais amestrados, chimpanzés, orangotangos ou ursos do clima frio da Rússia. Sem mais aquela, num domingo, numa esquina qualquer, aparecia um grupo de curiosos, exibindo esses animais em números cômicos de saltos, cambalhotas e bailados, ao compasso de pandeiros. Os animais vestiam roupas a caráter, com saiotes multicores e chapéuzinhos de penacho. Acabada a apresentação o próprio animal com seu chapéu, recebiam dos assistentes níqueis em pagamento pelo trabalho. 

Eram acrobatas, amestradores de bichos, precursores dos circos. Quando já mais desenvolvida a vila apresentavam-se os circos, divertimento para temporada de um mês. Eram armados no Largo da Matriz, no lugar onde se localiza o Palácio 21 de Março sede da Prefeitura Municipal. A propaganda era feita pelos palhaços, que percorriam as ruas montando às avessas, de costas, o itinerário a seguir, num cavalo puxado por um menino. Número original por seus atores. Acompanhar o palhaço fazia momentos inesquecíveis para a molecada. Encenavam o mais sensacional número de representações circenses, pela espontaneidade e entusiasmo desses companheiros improvisados. 

- Abaixa o sol suspende a lua... 
E o coro infantil respondia: 
- Olha o palhaço que está na rua! 
O palhaço, em piruetas, montado em seu cavalo: 
- Hoje tem goiabada? 
- Tem sim senhor! 
- Hoje tem marmelada? 
- Tem sim senhor! 
Às vezes o palhaço exigia maior empolgação do coro desafinado: 
- Mais alto, mais forte
- E o palhaço o que é? 
- É ladrão de mulher! 

Os garotos respondiam mais alto. À noite, antes de começar o espetáculo, a bandinha de música em frente ao circo tocava diversas músicas de seu repertório. E, com estímulo do quentão, o povo se divertia. O senhor Viu faz uma pequena comparação com o lazer dos adolescentes da época dele e os de hoje, “Eu vejo meus filhos: a diversão deles é ir ao estacionamento, no bar. A gente se divertia, tocando e dançando... sem bar”. Ele também fez parte de um pequeno conjunto musical, recorda ainda o nome dos músicos, Elias Gomes tocava violino, Vitor clarineta e o Adauto Fernandes tocava violão. 

Borborema também teve suas bandas de música. Em 1914, a vida tranqüila e rotineira do arraial, monótona, necessitava de passatempo. Sob orientação do maestro Silvino Pontes, organizou uma comissão para formar uma banda de música, iniciou então o aprendizado teórico das notas fusas e semifusas. Os candidatos convocados em parte eram da zona rural. Após os trabalhos na lavoura, vinham à noite para a vila, ensaiar, adquirindo a maior parte do instrumental em pouco tempo, a banda se exibia em passeatas pelas ruas, em concertos no coreto no largo da igreja. Depois veio Alfredo Queirós, que deu melhor organização à corporação. O apogeu foi atingido sob a regência de Francisco de Oliveira, o popular "Chico Guaiaca", padeiro profissional e músico nas horas vagas. 

Com grande número de músicos, aconteceu o imprevisto, houve uma trama da qual resultou a formação de outra banda, regida por Horácio, maestro com apoio de "Pedrão". Pedro Francisco, representante dos músicos aqui formados, que depois alcançou o posto de primeiro pistonista na banda da Força Pública do Estado. Começou a rivalidade. Quando se fazia convocação dos músicos de uma banda, a outra logo se alertava para a mesma passeata. Em formação marcial, ambas enquadradas por acompanhantes, para "sustentar a nota" num possível entrevero, percorriam o mesmo itinerário. 

A melhor exibição seria aquela que encobrisse a outra na marcha de sua preferência. As bandas, além das apresentações públicas, eram o ponto alto nas festas da igreja, acompanhando as procissões. O médico doutor Bocca recorda que: “Naquele tempo a melhor orquestra do interior era a Sul América, de Jaboticabal veio tocar em Borborema uma vez. Fui ao baile. Não tinha onde caber mais gente . Os carnavais eram feitos no salão da casa Martins Carvalho. Até que um dia resolvemos fazer um clube". 

O senhor Luiz Torres recorda o lazer da zona rural, onde, segundo ele, acontecia a corrida de cavalos, que sempre acabava em discussões. Naquela época em que o lazer era pouco, destacava-se um esporte na preferência dos borboremenses, o futebol, que é tido como paixão nacional. O senhor Arlindo Alves Mourão de 66 anos, recorda os velhos amigos de futebol: "A diversão número um era o futebol. Quem jogava comigo era o Jaci, Netinho Leme, Nilton Braga. O time era só amador. Não ganhava nada, só jogava mesmo”. 

"O campo de futebol está mais bonito. Mas o que adianta, se eu não jogo mais?" Seu depoimento, pode ser de alguém que trabalhou na agricultura e depois se tornou comerciante. Primeiro recorda as boas festas do padroeiro da cidade, São Sebastião, para depois estabelecer o rural. Relembra também as antigas festas juninas, onde havia amendoim, quentão, fogueira, em que se soltavam muitos fogos. O senhor Arlindo conta que se rezava muito e que hoje ninguém mais reza, comparando as festas do passado com as de hoje.

Autor: 
Jornalista José Commandini Neto 
netoborbo@bol.com.br

 

 

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