Seu Navegador não tem suporte a esse JavaScript!
 
  • Marcos Antonio Rodrigues - DEM
  • Vereadores
    LEGISLATURA 2017-2020
    Presidente Atual
    Marcos Antonio Rodrigues
Hora: 00:00:00
Capítulo 3 - Borboremenses, suas lutas e revoluções
Webline Sistemas

 Borboremenses, suas lutas e revoluções 

Naquele passado simples, a vida em Borborema era rústica e trabalhosa. E a marca dessa rusticidade aparece em vários depoimentos. O senhor Miguel Di Bacchi, deixou registrado seu depoimento no livro “Memória Viva – A História de Borborema”, da sociologa Dulce Consuelo Andreatta. Ele foi agricultor, forneceu descrições que ajudaram a visualizar a antiga Borborema. Contou-nos que as ruas eram de terra, com muitos troncos e pedras, além de cabritos e cavalos. “Em roda da igreja” tinha o “jardim”, que segundo ele não passava de mato, onde os animais pastavam. As árvores que faziam sombra eram jambolões. 

A expressão “Em roda da Igreja”, que foi usada várias vezes pelo senhor Di Bacchi em seus depoimentos, deu cenário à sua descrição. Quase se podem ver os animais, no meio do campo, prestando, sem saber, serviços de jardinagem, evitando que o capim crescesse demais e estragasse o visual da “Casa do Senhor”. É possível imaginá-los nos momentos de sol e chuva caminhando para a sombra ou proteção dos jambolões. Uma cena de presépio. 

No seu linguajar, ao mesmo tempo rústico e poético, o senhor Di Bacchi nos forneceu preciosa descrição do ambiente dos pequenos distritos nos primórdios do século passado. Sua memória é precisa para os anos de 1920. Ela oscilava entre o ambiente rural e urbano que resultava do avanço da ferrovia e do café sobre o então chamado Oeste Paulista. E na sua forma característica de recordar, ele trouxe, ou melhor, dizendo, transportou com sua memória uma galeria de tipos diversos vieram à mente os motoristas de Borborema, o Zeca Ianello, o Vicente Faraco, o Tiãozinho Claudino e o finado Luiz Caetano. 

Mas descreve também as feridas daquele tempo, para que não se pense que tudo era “presépio” na simples Borborema de então. O que sobressai de sua fala é o extremo sacrifício a que estavam submetidos os homens rurais. Sua linguagem, entrecortada pelo esforço de lembrar, é agora contradição concisa e ao mesmo tempo expressiva. Em 1928 o senhor Di Bacchi residia no Bairro Dourado, onde, segundo conta, arriava o cavalo e colocava sobre o animal meio saco de milho e ia ao povoado trocar por fubá. Naquela época, os primeiros habitantes não tinham dinheiro. Tudo era feito na base do escambo. 

Os primeiros comerciantes do povoado eram de origem síria Nagib, João Agib, Elias Audi, e mais tarde, Cipriano e Jorge Sahão. Os animais eram usados para carregar o cereal. E era só para o trabalho, o que tornava o lazer ainda mais dificíl. Vinham a pé do sítio para a cidade à noite. Certamente vinham para o encontro com amigos no povoado. E voltavam, logicamente a pé, não raramente debaixo de chuva. E havia muita violência também apenas brigas. Como relata o senhor Di Bacchi “Luciano matou o Vicente”, “Baianinho matou o João Soldado”. Porque brigaram. O poder do Estado não chegava a regiões distantes para coibir a violência. E nem colocava recursos para atender urgências médicas. Os medicamentos, na maioria, eram produtos homeopáticos, muito em voga na época. 

A entrevista do senhor Di Bacchi é um documento. No depoimento, manifestou alguma dificuldade de memorização, apenas. Estava lúcido, apesar de uma vida cheia de sofrimentos e carências. A entrevista revelou aos jovens encarregados de colher informações para o livro “Memória Viva”, seu esforço num constante murmurar, impossível de ser transcrito (“O que mais?” “Como era mesmo o nome? Não consigo me lembrar!”, “A gente é velho, não tem muito que falar?”). Mas subitamente explodiu em uma frase curta, carregada de significado: “O velho Mourão morreu de cachorro mordido”. Mais um personagem resgatado para a história de Borborema. O senhor Di Bacchi também recordou os ladrões de cavalo e gado. E fez uma associação pitoresca entre a Revolução de 1932 e a captura dos ladrões. “Nós trabalhávamos na roça, eu e a mulher. E as crianças embaixo do rancho também. Então, com a Revolução de 32 vinha avião pro ar e dava volta na cidade aqui. Tudo gente atrás de ladrão, não é?”. 

Borborema também teve seus heróis de 32. São Paulo fez a Revolução Constitucionalista contra o governo de Getúlio Vargas, em conseqüência da Revolução de 1930. Apesar de o Partido Democrático Nacional ter aberto as portas de São Paulo, em Itararé, aos revolucionários do Sul, foi nosso Estado considerado “Terra Conquistada”. O governo federal, em vez de nomear um governante paulista e civil, mandava interventores militares. Predominava os tenentes chefiados por Oswaldo Aranha, adversário de São Paulo. O levante de 9 de Julho de 1932 teve o apoio integral do povo paulista. Traído na última hora, somente com a ajuda do Sul e do Mato Grosso, arcou com as conseqüências a dessa luta desigual. Borborema atendeu ao chamado. Governavam o município, por coincidência, dois nortistas: Doutor Calheiros (alagoano), prefeito municipal, e Doutor Marcelo Chagas Aroucha (pernambucano), delegado de polícia. O prefeito nomeou uma comissão formada por Dante Cordiglione, Manoel Silveira Bueno, Salim Buhian e José da Silva Corrêa para receber donativos para a Revolução. 

A Força Pública tinha recolhido aos quartéis os policiais de todas as cidades do interior. Os batalhões dessa gloriosa milícia eram destacados para diversas frentes de combate. O delegado requisitou armas (39 carabinas) e organizou o policiamento da cidade e a guarda noturna com civis. O Doutor Marcelo foi um democrata que trabalhou com vontade e entusiasmo para a causa da Revolução. Foi aberta a inscrição para o voluntariado. Um contigente inicial de dez voluntários recebeu um preparo inicial do reservista de “primeira categoria” Antônio Giuliano, embarcando para a capital com todas as honras tributadas pela população. Esses revolucionários não chegaram a seguir para frente da luta. 

Foram eles; Francisco Gomes de Oliveira (Chico Padeiro), Dante Cordiglione, Fausto Casvamo, Geraldo Silveira Bueno, Calvino Candido, Sebastião Paulo dos Santos. Outros revolucionários de Borborema já estavam nas linhas de vanguarda: Atílio Pizzolante, incorporado no 6º Batalhão da Revolução Constitucionalista, a “frente sul”, sob comando do coronel Basílio Taborda. Zoroastro Leme esteve na “frente norte” nas cidades de Silveiras e Queluz, sob o comando do coronel Euclides Figueiredo. Aquele, incorporado no batalhão piracicabano, com os voluntários da Escola Agrícola. Leste, no Quartel Central dos Motoristas, numa das seções do M.M.D.C., as iniciais dos nomes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo formaram a sigla M.M.D.C. Jorge Saldanha e José Marcondes de Oliveira, foram outros combatentes borboremenses integrados nos efetivos da Força Pública. 

O senhor Di Bacchi nos relatou também sobre as várias dificuldades enfrentadas pelos primeiros moradores de Fugidos. Uma delas era a obtenção da água dizia que: “No poço, no “sarrilho”... Os animais todos bebiam água no poço. Tirava água e colocava na caixa. Nós foi judiado...”. A família toda ia para roça, não podia descuidar das crianças (cobras chegavam a mordê-las no berço). “Catingava o cheiro do leite do peito e a cobra enfiava até a boca na boca da criança para mamar o leite. Então (por isso) carregava tudo nas costas (as crianças)”. As evocações do senhor Di Bacchi, ajudaram a criar o painel de um ambiente rural muito específico do passado, onde não havia separação entre o mundo da família e o mundo do trabalho. Para os anos 20, Borborema tem realmente fatos marcantes relativos à derrubada dos postes telefônicos pela população enfurecida. O fato apareceu em quase todas as entrevistas. 

O senhor Wilson que hoje o consideramos um heróis de nossa história viva, colocou aos nossos adolescentes que, durante muito tempo, até 1924, Borborema tinha como serviço público, apenas o telefone “da Companhia Telefônica do Estado”. E o senhor Saul recordou o momento de forma poética: “Não havia energia, só a escuridão. E à noite tinha a lua”. Mas é a narrativa do senhor Wilson que nos deu conta do que irritava a população. Não era bem o fato de não haver luz elétrica e haver, sim, telefone. Afinal, não são coisas incompatíveis. O problema é que já em 1925 se construíra a usina hidrelétrica no Ribeirão dos Porcos a apenas dez quilômetros da Vila e várias propriedades rurais estavam servidas por iluminação elétrica, enquanto no povoado se usavam lampiões a querose.

A concessão Gataz e Maluf deveria abastecer com energia elétrica diversos municípios: Catanduva, Novo Horizonte, Borborema, Urupês e Itajobi. Em Borborema não era possível à instalação da linha condutora porque as ruas estavam ocupadas pelos postes da companhia telefônica em altura inconveniente, provocaria interferência, curto-circuitos e interrupção da corrente elétrica. A Companhia Bragantina não se interessava por nenhum acordo. Emperrou a política, nada se conseguia. Entrou em ação a burocracia, petições, requerimentos, justificações. Tudo em vão. Os ânimos foram se exaltando, comentários de esquina, ameaças e a Companhia não dava ouvidos. Seus serviços não demonstravam consideração aos reclamantes. Postes caídos, linhas interrompidas, comunicação précaria

Havia impaciência pela protelação do melhoramento tanto desejado. Os maiores políticos, autoridades, insulflavam o povo para que decidisse esse impasse com uma medida drástica. Dentre os entusiastas da causa em jogo destacavam-se Hugo Lippi (farmacêutico) e o Doutor Ribeiro da Mata (médico) que, residia no distrito mesmo antes do Doutor Lauro Torres de Rezende. Chegou, porém a última notícia, estaca zero. Alguns moradores mais decididos tomavam a iniciativa de começar a derrubada dos postes, foram eles José Fagá, Francisco Laporta, Francisco Alexandre, um valentão desabusado, e Joaquim Saldanha, que foi estafeta (mensageiro), sub-delegado e sub-prefeito

Soltaram rojões. Foi o sinal de alarme, toque de reunir para o avanço final. Todos os moradores saíram na rua, à travessia foi geral. Uns serravam os postes, outros desmontavam os fios que, enrolados, eram depositados no centro telefônico. No final da peleja os postes jaziam inertes, encostados à beira das cercas não restando um único de pé. Abriu-se inquérito, processos contra o povo. O advogado de defesa foi o Doutor Silvado. Ninguém viu, ninguém tomou parte da arruaça. Não havia testemunhas e o processo foi arquivado. Resultado: o distrito recebeu força e luz elétrica, mas ficou sem telefone pelo tempo de 25 anos, por represália da Companhia Telefônica. 

A Revolução foi confirmada pelo senhor Wilson: “Os moradores da Vila, sabedores dos motivos porque a iluminação elétrica para cá não vinha – pelo fato dos postes da telefônica encontrarem-se completamente desalinhados na estrada, um de um lado e outro de outro lado, impedia o alinhamento dos postes de energia elétrica. E revoltados com essa situação, a população da vila, de machados em punho, numa noite, derrubaram todos os postes telefônicos”. 

A cena é cinematográfica. Na escuridão da noite, carregando seus rústicos lampiões a querosene, a população marcou a história com seu protesto. Um protesto que obteve como resultado uma verdadeira afirmação de cidadania. Assim, chegava entre os anos de 1924 e 1925, à vila de Borborema, a tão esperada luz elétrica. O que colaborou com a vinda de empresas beneficiadoras de algodão.

Autor: 
Jornalista José Commandini Neto 
netoborbo@bol.com.br

 

 

Enviar esta notícia para um amigo

Reportar erro



Próxima Sessão

9ª SESSÃO ORDINÁRIA 2018


30/05/2018 - 19 HORAS

Assista ao vivo neste site.