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Capítulo 8 - A saúde e as dificuldades para o tratamento

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A saúde e as dificuldades para o tratamento 

Nas entradas pelo sertão de São Paulo o pioneiro devia ter fibra de um bravo. O indivíduo só contava consigo próprio, o meio era de todo hostil e apresentava obstáculos de toda a natureza. As distâncias entre os povoados eram longas, havia falta de comunicação e, sobretudo, falta de assistência médica, o inimigo número um era a Maleita. 

Borborema é cercada dos rios Tietê, Porcos e Fugidos, cujas as margens eram focos de proliferação dos mosquitos transmissores, não se acreditava que fosse o pernilongo, a causa principal da existência da doença. O mau cheiro das matérias orgânicas em decomposição, como o caldo de feijão no côcho dos porcos, a água servida na porta da cozinha e os brejos nas vazantes seriam responsáveis, Tudo porém errado. Havia o costume de construir casas na beira dos córregos, contribuía para o aumento dos maleitosos. 

Quem se aventurasse a cultivar nas proximidades dos rios, nas terras mais férteis que nos espigões, não aguentava a maleita. Tinha que fugir, abandonando roças e benfeitorias. Havia casos, de caírem doentes ao mesmo tempo, todas as pessoas de uma mesma família, não sobrava ninguém para dar aos acamados, sequer uma caneca de água, que os aliviasse dos fortes e terríveis acessos de febre e tremedeira. A espécie de maleita mais temida, a sezão (febre periódica), terçã maligna (febre em que os acessos se repetem de três em três dias), não raro liqüidava com o doente, principalmente no caso de reincidência, quando o fígado, deixava-o pálido com inflamação crônica. 

O combate preventivo como se faz hoje com a dedetização das casas e focos dos pernilongos não existia, o “sulfato” como eram chamados todos os sais de quinina, era o único tratamento eficaz dos doentes de maleita. A dose era seguinte: um cabo de colher no café, em jejum ou três vezes ao dia. O uso exagerado, deixou muita gente surda. Por muito tempo a melita foi uma moléstia endêmica permanente na região.Havia safra de maleita para as fármacias, em determinado período do ano, vendiam-se, quase somente medicamentos anti-maláricos. Com as derrubadas das matas, a plantação do café, algodão, foram aproveitadas as melhores terras. Então a drenagem natural, acabou com a indesejável maleita. 

O doutor Bocca conta como foi sua chegada em Borborema. “Em 1951 eu encontrei Borborema nas seguintes condições: fazia um mês que não havia energia elétrica. Por incrível que pareça quem estava em greve era a Companhia de Força e Luz, em represália a Borborema, que tinha feito um desacato para Companhia. Então por vingança, fez um mês sem luz”. Simplesmente fantástico, uma cidade que cujos os habitantes derrubam postes nos anos 20 e nos anos 50 entraram em luta com uma poderosa companhia de força e luz. As conquistas da cidadania precisam ser analisadas por uma história que conte a luta do homem comum nas pequenas cidades. Por enquanto sabemos da truculência da Companhia de Força e Luz que teve o requinte de deixar toda a cidade sem energia, às escuras, por um mês. Assim são tratados neste país aqueles que lutam pela cidadania. 

Não devemos esquecer da lepra que nos promórdios assustava os moradores da vila. Muitas vezes se presenciava, a chegada na vila de uma caravana compostas de homens, mulheres, até crianças doentes do mal de Lázaro. Esmolavam de casa em casa, depois arranjavam-se em barracas, como ciganos, a saída da vila, descansando para prosseguir na jornada. Eram recebidos pelos moradores com muita precaução e até pavor, pelo possível contágio. 

Para esses doentes, geralmente lavradores rurais, já em estado avançado da doença, que se denunciava pela profunda alteração fisionômica, fazia-se a entrega de um cavalo, adquirido por um abaixo assinado. Abandonando casa, família, viajavam sem destino, esmolando de vila em vila até onde e quando a doença o permitisse. Aqui em nossa região, esses doentes, andaram até 1930 sempre em número crescente. 

Na revolução de 1930, o policiamento nas cidades era feito por civis sob ordens do delegado. Não se sabe como, nem de onde surgiu, correu o boato que um bando de homens lazarentos, vinham assaltando vilas indefesas para o saque e tumultos, foi organizada a defesa do município. Guardas foram posicionados em todas as entradas, fortemente armadas. Levou-se a sério a perspectiva de uma luta a bala em qualquer noite. As patrulhas se revesavam e eram discutidos os planos de combate. Nas cidades vizinhas havia apreensão com a extensão do boato. Confiavam entretanto no patrulhamento de Borborema. Assim se expressavam: “Não há perigo para nós, se o bando tentar passar por Borborema, aqui não chegará. Aquela gente valente como é, vai decidir lá mesmo a questão”. 

Essa mobilização foi em vão. Tudo não passava de alarme falso, conseqüência da atmosfera revolucionária do momento que gerava esse boato fantástico. As vezes ouvia-se na calada da noite uns tiros, descargas de carabinas, lá do outro lado. De repente, do lado de cá, nova salva de artilharia. No dia seguinte, ia se saber do acontecido à notícia era de que o pessoal do João Leme estava provocando, os partidários de Hugo Lippi que davam a resposta. Eram simples manifestações das disputas políticas. 

No estado de São Paulo constava aproximadamente dez mil casos dessa doença, o governo estadual então resolveu tomar medidas concretas, para acabar com esse problema, construíram-se os asilos-colônias em diferentes lugares do estado, Aimorés em Bauru, Cocais na Mogiana, Pirantingui na Sorocabana, Santo Angelo próximo da capital. 

Assim foram internados obrigatóriamente, todos os doentes de lepra do estado. O doutor Bocca nos conta que os tratamentos era na base da clínica geral, porque não havia quase especialidades, então tinha que lançar mão de todos os recursos do momento. Por exemplo não havia exames laboratoriais, raio X freqüentes e todos os exames sofisticados, que hoje temos. Sabemos que hoje há diferentes medicinas para diferentes classes sociais. Mas os remédios são os mesmos. O que varia são os equipamentos e os médicos. Naquela época, o mesmo médico era suficientemente criativoa para adaptar suas prescrições a diferentes pacientes, observados com enfoque social. Borborema não tinha hospital “...os doentes eram sempre atendidos no consultório. Aí a gente atendia pequena cirurgia, fraturas, envenenamento, crises convulsivas, tudo o que viesse. Eu tinha que fazer das tripas o coração”. 

Nas consultas conversava-se muito, para recolher dados que oferecessem condições de diagnósticos. O tratamento era de acordo com a condição econômica e social de cada doente, pois não era possível para dois doentes, um pobre demais e um mais abastado, preconizar a mesma coisa porque o pobre não ia alcançar o regime alimentar, qualidade de alimentos, alimentos mais ricos, por exemplo. O tratamento era à base de receituários manipulados na farmácia. Hoje ela já vem preparada do laboratório. No inicío era mais formulário, formulava a receita e o farmacêutico preparava. 

O doutor Bocca explica que havia dois tipos de crianças: “Havia dois tipos de crianças naquela época. As privilegiadas, que as famílias eram bem estruturadas, filhos de professores, de profissionais, de pessoas mais abonadas eram melhor cuidadas, melhor vestidas, melhor protegidas contra perigos (a gente percebia que os pais cuidavam das crianças quando andavam de bicicleta na rua). E havia a outra classe de crianças abandonadas que é o problema do Brasil. Crianças de rua como chamam. Viviam ao relento, sob qualquer perigo, debaixo da ponte, esmolando, roubando. Mas não era culpa delas, era culpa da sociedade”. Observem como o olhar de médico é também um olhar de sociólogo. Percebe a estrutura social produzindo problemas que consideramos atuais, mas que vem se formando de longa data. 

Otimista, espera que, com o Estatuto da Criança e do Adolescente, as crianças passem a ser bem tratadas e recebam seus direitos “que são amor, proteção, educação e saúde”. É um prazer imenso ler um depoimento que enfatiza direitos tão desprezado em nosso país, como os direitos da criança

Os enterros eram bem diferentes dos que estamos acostumados hoje, nos estudos foclóricos de determinadas regiões, certos usos e costumes são rituais mistos de religião e crendice. Na Itália, Calábria, Basilicata, antigamente quando alguém de uma família morria, vinham as carpideiras, velhas amigas da casa. As mulheres, parentes mais chegadas do morto, esposas, mães, irmãs expressavam sua dor ao redor do morto querido, chorando e cantando, lastimando-se. Na zona rural, acontecia casos variados desses costumes. À noite, para “guardar” o defunto, apareciam vizinhos e amigos. De madrugada começavam as rezas, seguia-se um café depois uma pinga, isso com intervalo até o amanhecer. 

Para o enterro, não era prático o uso de caixão, pois não havia quem o fizesse. A rede era de uso corrente, um lençol ou coberta com que se embrulhava o cadáver amarrando tudo com cipó ou embira numa vara roliça, comprida e resistente. O cortejo ao sair da casa do morto não tinha muita gente, mas ia aumentando durante o caminho. Era composto de cavaleiros com longas esporas. Nos pés descalços, iam de calças arregaçadas e em mangas de camisa, porque trabalhando na lavoura à beira da estrada, atendiam ao apelo dos que acompanhavam, gritando de vez em quando, “as almas, as almas”. Na longa caminhada cansados pela noite mal dormida, ou pelo trabalho da enxada, parecia-lhes excessivo o peso do morto, diziam-se que era porque tinha muitos pecados. 

Então, quebravam alguns galhos do mato e o malhavam simbolicamente, para diminuir o peso. Ao chegar à vila naquela marcha, acelerada destacava-se um cavaleiro, galopando a frente. Ia tocar o sino da capela para que se constatasse o credo religioso do morto.

Autor: 
Jornalista José Commandini Neto 
netoborbo@bol.com.br

 

 







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